sábado, março 31, 2007



É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar
...............................


mario cesariny- o virgem negra


A poesia é a vida? pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
- e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo de um poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio...
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
e a morte se meta de permeio.


do o'neill


"Mas o Senhor vira tudo do avesso..."
"É o meu dever, minha senhora. Não sou, como disse Goethe, o espírito que nega, mas o espírito que contraria."
"Contrariar é feio..."
"Contrariar actos, sim... Contrariar ideias, não."
"E porquê?"
"Porque contrariar actos, por maus que sejam, é estorvar o giro do mundo, que é acção. Mas contrariar ideias é fazer com que nos abandonem..."
....

a hora do diabo- fernando pessoa

E lá pode haver maior catarse que a maledicência? Não perceber isto é contariar a inteligência, rima perfeita com a oração precedente.

:)

domingo, março 18, 2007



--N'um domingo de março, pela estrada
Que de Arroyos conduz á Panasqueira,
Vão magotes de povo de ranchada
A provar o bom vinho, e a petisqueira
Do louro peixe frito e da salada,
Que na _Perna de Pau_ a taberneira
Lhes prepara; e com litros, comesanas,
De lá voltam com grandes carraspanas.

Um meeting na parvonia, by Anonymous


Em suma: somos os velhos
cheios de cuspo e conselhos,
velhos que ninguém atura
a não sar a literatura
..........................
Outros mijam, fazem esgares,
têm poses e vagares
bem merecidos
............................
do o'neill

quinta-feira, março 08, 2007



Jorge Lúcio de Campos

A origem do mundo

(a Gustave Courbet)

Há uma doença qualquer tagarela
nesse buço de quasares negros

ao meu lado; aqui comigo a carne
ferve aos poucos – cortes lentos

Mas por que não regurgita agora
a vulva cáqui linguaruda

sob a luz desenroscada
da manhã?


Jorge Lúcio de Campos

Teoria do belo

Desejo gesta
um tom siena
em tua pele

Eu, embaixo,
envergonhado

Tu, em cima,
seios cheios
de perdizes


Carlos Drummond de Andrade

O chão é cama

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.

quinta-feira, março 01, 2007



...........................
Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transparência.

Natália Correia

Mocinhas gráceis...


São flores ou são nalgas

São flores ou são nalgas
estas flores
de lascivo arabesco?
São nalgas ou são flores
estas nalgas
de vegetal doçura e macieza?

Carlos Drummond de Andrade