domingo, julho 30, 2006



“Papá, os carteiros não são cuscos, para ler o que escreves aos teus amigos?” Sorrio. E espero que o carteiro que te entregar este postal sorria também.



:)))))))))))))))))))))) escreveu ele

quinta-feira, julho 27, 2006



ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

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Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
Água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...

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Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas afinal é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.


Fernando Pessoa

:))))))))))))))))))))))))))


III
A vestir-te
o corpo
nu

ou a sede
que é minha

ou a seda
que és tu

David Mourão-Ferreira


Gostar de um texto intemporal, de eterno consenso como Os Lusíadas ou uma simples quadra de F. Pessoa, é tarefa banal e previsível. Porem, descobrir num cantinho de um livro esquecido um tesouro poético é prémio suficiente para fazer do gostar exclusivo algo de pessoal e dificilmente transferível. E porque não fazer disto objecto e critério de escolha ou selecção? Que a poesia é fruição estética isso é matéria de básica natureza: que o usufruto seja à nossa feição é coisa que se requer e se demanda.
Este despojado texto de David Mourão-Ferreira avulta pela nobreza dos sentidos, pela elegância e fruição do belo. A concisão das ideias, em parcimónia de palavras numa estrutura simples, conjuga a possibilidade de dizer o banal de forma sublime. Nunca o corpo e o desejo foram tão escassamente sugeridos e tão sobejamente exaltados. Note-se a estrutura tripartida do poema a colocar na disjuntiva o objecto do desejo após o desejo ele mesmo. A “sede” é a metáfora do desejo e a “seda” a sugestão táctil, também ela na mesma notação estilística. Se a primeira estrofe introduz a noção de nudez, a segunda ostenta a ideia desejo e a última a sensação do toque, do afago. Repare-se ainda no paralelismo anafórico de “ou a” e “que é” imprimindo um ritmo de tecitura poética repetida mas não repetitiva. O recurso de duplicação transmite a musicalidade necessária e característica dos textos poéticos e é reforçado pela vogal u, a iniciar e a concluir a descrição. Um só verbo, “vestir-te”, em nada induz actividade senão a simples existência apreciativa: daí a presença obsessiva dos pronomes que remetem para o sujeito e objecto poéticos e dos substantivos que os exibem. O texto é discursivo e estende-se apenas numa única oração sem qualquer sinal de pontuação o que lhe concede uma liberdade em edifício de possibilidades ilimitadas por notações rítmicas. Cada leitor faz as pausas onde mais a sua intuição a isso o obrigue ou se sinta inclinado. E essa é a facção mais importante de um qualquer texto: a sua capacidade de fazer saltar emoções, daquelas que existem tácitas ou reprimidas, para o exterior da capacidade de exaltação estética. Que todos sejam capazes de sentir é coisa pragmática, mas para que a capacidade de o fazer seja possível é necessária a solidez de quem saiba trabalhar palavras para as fazer estímulo de adesão de sentimentos ou emoções. É este o caso.
Bem que este pequeno poema faz apelo para aquilo que é banal nas relações humanas mas carece de exaltação elegante. É que isto de discorrer sobre ligações carnais de maneira airosa e capaz de as tornar objecto de adesão e identificação sublimada é faina para minorias, não mais inspiradas que as do comum leitor, mas daqueles que manejam a linguagem de forma a extrair dela as potencialidades expressivas pela beleza das palavras e das ideias.

terça-feira, julho 18, 2006



exemplo disfórico

Um cromo de Aveiro deu-me a conhecer estes dois cromos. Deambulações fotográficas são sempre propícias a conhecer gentalha mais ou menos interessante e estes eram-no, ou não fossem 40 anos de pesca ao bacalhau motivo bastante para mil historietas de sabor pícaro ou ressonâncias épicas. Ora a minha tendência para o disfórico bem me poderia fazer estrondo do caricato dos marenotos nas suas bandeiras, pés imundos, conversa de sintaxe tropeçante e calão inevitável. Sempre me foi interessante a disforia, a desconstrução, a desmitificação, a dessacralização e outros termos com o mesmo prefixo a apontar para o outro lado mais risível da vida, ou não me olhasse eu da mesma forma, sim que eu me assumo como iconoclasta de mim mesmo como atesta a barriga proeminente, a careca despontando e o ar idiota como me apresento face a mitralhada ou gente que procede de intenções mais intelectuais. O lado grotesco da vida, levando a confusão entre disforia e cinismo, é-me bem mais interessante que a vertente lírica. Pois vem esta idiotia toda a propósito do alarde pomposo que os cromos da foto faziam do facto da cabana estar com entrada virada a norte, como se isso fizesse marcar bem a sua posição de, também eles, iconoclastas das tradições lá do sítio. Ora o que acontece é que, de paleio em paleio, se esteve à compita palavrosa e se ficou a saber inúmeras coisas que à maioria das gentes nada interessam e que por isso aqui não se faz notícia. Aliás nada disto aqui devia estar pois ninguém tem nada a ver com esta historieta mas apeteceu-me escrever, assim a modos de quem não tem nada para fazer e devia estar quieto em lugar de fazer pública coisa que só a mim interessa ou tem significado. Dizer ainda que um dos cromos me deu um kilo de flor do sal, que lhes levei fotos como sempre faço questão e, sobretudo, me apetecia de morte passar lá o dia ajudando como podesse nas lides salineiras, isso sim, seria corolário suficiente para o convívio com duas enciclopédias do ridículo … mas sumamente apelativas. Um dia destes volto lá com um garrafão de vinho de Fátima e vou pô-los a cantar as mais remotas historietas ou não fosse o referido nectar um líquido de 14,5 graus bem escorregantes e de fazer falar até os mudos.

quinta-feira, julho 06, 2006



Um comentador pseudo iluminado dizia que gostava “de como metade da intelectualidade fandanga desta espécie de país cospe para o lado ao ouvir falar de bola, sem saber bem porquê - a não ser a vaga impressão de que se "é diferente" por isso.”
Ora bem! Antes ser diferente por qualquer coisa que alinhar na carneirada acéfala de futebois e afins, assim como quem corre atrás do pastor bestial. Pode haver pior espectáculo que multidão ululante arrotando alarvidades? Não é ser diferente, é ser lúcido.
Bah!

domingo, julho 02, 2006



Esta moda das bandeiras nas casas é mesmo coisa de gentalha pobre. Repare-se como elas abundam nos bairros sociais ou lugarejos pelintas. Pessoas de bom gosto e educação não alinham nestas manifestações de patriotismo parolo pois o orgulho de um povo passa por outras coisas menos histéricas e bem mais elegantes. Veja-se como em casa de pessoas bem formadas e instruídas essas treta de verdes, vermelhos e amarelos fica no recato de livros e erudição. Bastou um palermóide brasileiro atiçar o povoléu com bandeirinhas e ditos patrioteiros e vá de colorir em espalhafato ruas e ruelas de pobretanas. Vou com gente discreta e abomino manifs exultantes de berraria esterqueira. Bah!