quinta-feira, março 30, 2006



sobre a boa poesia

Passamos pela sessão da poesia? Fomos. Numa sala nebulosa, meia dúzia de sombras estáticas em arremedo de gente ingeriam a arte de um vulto idoso sentado a uma mesa de livro na mão e candeeiro aceso, concebendo um ambiente de requinte pífio em densidade de Quaresma. O decrépito ser humano babujava verso sobre verso numa entoação manhosa, mas muito profunda, muito séria, cheia de operáticas ressonâncias seguidas de suspiros inspirados, poéticos, sublimes. A voz asmática em arranques de alzeimer e entoações espasmódicas requebrava estonteantes volteios e fazia tremelicar a flácida nutrição toda ela ameaçando aluir cadeira abaixo com a veemência da leitura. Como entidade recitante, fazia todos os possíveis por combater aquilo que um poeta pouco esclarecido, um tal Andrade, dizia sobre dizer poesia: dever ela ser lida de forma “a destruir toda a ênfase”. Por isso declamava numa toada dramática, insuflando incontáveis textos bafientos, na opinião de sensibilizar pela força de uma recitação tremenda aquilo que os versos pareciam ser incapazes de realizar por si mesmos.
A cultura é uma coisa séria, extenuante, e a senhora bem levava a coisa à letra. Por isso lia sentada, abatida ao peso dos árduos versos da cultura de iluminados líricos. Coisas ligeiras são de inferior qualidade que ali se estava accionando algo artístico, espesso, superior. A senhora vestia de preto a acentuar a elegância da coisa e o cheiro a mofo das poesias tinha correlativo na indumentária da entidade declamante. Nem nunca se poderia compreender que a cor visse destoar a seriedade. Coisas coloridas são para espavento de gentinha iletrada e insensível que aquilo era sessão para pessoas bem pensantes, sensíveis e apreciadoras do belo. Zuniam pela sala palavras como alma, amor, vida, luar, contigo, aurora, dor, desilusão, lágrima…entre outras subidas concepções da mente humana, e outras cuja dicção fazia supor ainda mais profundas até porque não se percebiam. No supor é que está o enigma e os tropeções na pronúncia tornavam aquela erudição ainda mais insondável. Os peitos caídos, no entusiasmo da recitação, insuflavam-se de poesia e ar, arfando freneticamente como arritmia estética e nem uma só vez bebeu de um copo de água não fosse ela interromper o floreado palavroso aplacando a falta de fôlego do silicone literato, o mais palpitante e harmonioso. Faltava-lhe o bafo quando disse, da sua autoria, uns versos mais enfáticos e patéticos que todos os outros agitando o corpo e a alma que lhe iam saído pela boca em tremuras de êxtase e espasmofilia. E, alagada em entusiasmo e suor, lá continuava com os esgares do sofrimento artístico assim a modos de fervor poético e cinta demasiado apertada. Só pareceu faltar o ranho pois a baba fez o favor de aparecer a dar um toque neo-realista à sessão de arte poética, complementando o estertor ultra-romântico da entidade sofredora que, continuamente, desfiava os poemas em crescendo até ao clímax de uma apoplexia.
Mas como Deus deu às crianças a clarividência que os adultos lhe fazem a desfeita de ir desperdiçando com o tempo, os cinco anos da Joana feriram o soberbo teor da coisa, Oh mãe, porque é que aquela senhora está a contar histórias de morrer? Saímos de imediato para a vida.


Senhora Margarida.
Eu gosto de ler os teus livros pois tem muitos, ensinamentos variados mas agora não me lembro de nenhum deve ser por serem muito assim como os do Paulo Coelho mas esse é pior porque é um homem e tu desculpe tratar-te por tu és melhor, pois és mulher e linda e tens cabelos lindos e o Paulo Coelho é careca e escreve muito mais mal que tu. E o trolha que mora no 5º esquerdo e tem uma mulher muito porca que só tem a 2ª classe como os dois e mal feita porque é derivado a ser muito invejoso diz que os teus livros não são de literatura light porque nem são mesmo literatura nenhuma mas a Sónia Carina que trabalha no shoping também lê os teus livros todos e até sonha com eles que ela me disse e eu sonho é com ela pois é muito boa quer dizer estou a falar de sabedoria não posso falar do corpo dela, pois podia parecer mal. Espero que aqueles invejosos que não sabem escrever e por isso estão sempre a dizer mal de quem sabe escrever bem como tu não consigam escrever o livro de críticas para por nas livrarias. E eu gosto do teu título de alma de pássaro pois tem uma coisa estilística de sinestesia como me disse a minha filha Bruna Sofia que até anda a estudar para cabeleireira olha só como eu sei falar das coisas lindas, que escreves, e és útil à sociedade e nós olhamos sempre para os teus livros e eu tenho ali todos na minha parteleira junto com capas de outros mas os teus estão mais à vista para obrigar a minha sogra aquela vaca a ler, também e a ficar cheia de ser sensível como tu e não percebo aquilo das couves e alforrecas porque não penso que estejas a falar dos produtos de ir à horta e levar ao mercado não sei onde o mal criado daquele de quem o nome não vou escrever aqui pois detesto ele, aquele que tem a mania que sabe comentar livros dos outros, mas o que ele quer é ganhar dinheiro mais o outro que também é careca como o Paulo Coelho e quer ter uma empresa de fazer livros para estragar os costumes com livros maus e tem o nome de mãe e não percebo isso mas sei que ele é careca e tem óculos mas o Paulo coelho é mais bonito pois tem mais cabelo e um rabo de cavalo à moda e vai a pé a Santigo na Espanha e o tal mãe não deve ir porque é fraco das canelas de certeza . Antes do vinte e cinco de Abril é que era pois havia respeito ainda bem que fizestes aquela coisa da previdência para te acautelares porque eles são uns porcos como o vizinho trolha que está sempre a dar arrotos e a cuspir da janela para a rua e uma vez acertou num polícia e foi pena o polícia não lhe amandar um tiro aquele badalhoco e olha que ele é tão estúpido que até diz que o teu nome não é lindo Margarida porque era melhor Sabrina Vanessa ou Cátia mas ele é parvo e não vou falar mais daquele bêbado estúpido que até me vem vontade de fazer uma coisa má. Continua a escrever os teus livros e o povo todo te apoia nesta coisa contra os invejosos e com esta me dispeço até sempre conta com este amigo.
Armindo de Jesus

segunda-feira, março 13, 2006



Brevíssimo ensaio sobre a mediocridade dos outros

Ainda estou para saber como vim parar a esta escola e o que faço aqui mas devo ser igual às minhas colegas pois olho as banhas da vizinha de sofá que eu quero é sair daqui levar o meu menino ao violino e a minha menina à escola inglesa e à dança e o diabo que as carregue às minhas colegas, todas elas umas porcas, que isto de ser burguês dá muito trabalho e aquela anda de jipe a salto alto e marido abonado e até as professorinhas novinhas trazem a preparação dos acanhados de abertura de espírito que em nada facilita a luta pela excelência ministerial, todas muito colegas, oh colega isto oh colega aquilo mas há quem diga que “colegas” é gíria de putas. Sobejam as iniciativas de jantares, jantarinhos, chazinhos e poesias coladas numa qualquer parede em monturos de cultura e erudição patetas ou colectas piedosas para pretinhos longinquos e caridades pífias expostas em placares e bolinhos a 50 cêntimos para fomento de teatrinhos ridículos, orgulho e palermice das minhas coleguinhas muito afoitas no exercício da cultura diminutiva em conluio com os papás babados da opulência parola das instruções pedagógico artísticas em tais representações dramáticas de fausto provinciano.
Os colegas homens oiço-os lá pelos cantos dissertando sabidamente de futebol, números de totoloto e tainadas alarves em olhares de soslaio para as professorinhas recentes numa concupiscência de trolha também eles na modorra do bafio das ideias.
Há que compreender, nem sei bem como, as ditaduras de arbítrios acéfalos exercidas por executivos tão bem intencionados como mal alicerçados em competências e ideias que resvalam para o exercício da arbitrariedade primária e da prepotência confrangedora, resumo de múltiplas frustrações sublimadas em orgulhos de posição dominante e múltiplas vingançazinhas. Tudo atolado: as birrinhas, os empenhos, as manobras, as mentiras, os conchavos, os arranjinhos num armazém de diminutivos, diminutivo é a melhor definição de escola tudo funciona a inho ou ito, programinhas e planificazãozita, as amizades contributivas, as vaidades de primeiras damas de paróquia, as invejas, as rivalidades...
Que os bons profissionais merecem o meu respeito ai isso merecem mas aquele colega alarve a declamar de lá de cima do púlpito da sua licenciatura em letras, no despudor dos imbecis, devem ser licenciaturas de vão de escada ou brinde do OMO, nunca ter lido Os Maias é matéria para não compreender mas apaludir que eu já li e duvido que as minhas outras colegas já todas tenham lido pois que o que fazem é ditar apontamentos e estarem sempre muito preocupadas em cumprir planificações não vá vir o inspector lobo mau e bem as percebo pois estão sempre muito cansadas, deve ser das combinaçõezinhas que há sempre por essas salas e saletas e andar sempre à coca e a inventar intrigas isso dá muito trabalho mas é-lhes mais interessante que dar aulas e eu não faço nada disso quero é sair daqui e ir ao cabeleireiro que me sinto mal com este cabelo e as unhas, nem as tenho com giz pois nem ponho as mãos no quadro, até porque dizem que o pó faz mal à saúde e eu quero é que a saúde das outras colegas se lixe com elas sempre em intriguinhas e a voz se lhes acabe não por falarem nas aulas mas das aulas nos cochichos de corredor ou nas intervenções bojudas de entidades pensantes, cheias de certezas definitivas e fatalistas ensopadas em pedagogias de catequese.
E o mais curioso é a forma como contestam tudo nas meias falas, nos murmúrios hipócritas de sala de professores, um antro de bisbilhotice imbecil, ou nos corredores entre aulas mas na hora da verdade de uma greve conclusiva aparecem com desculpas de os alunos coitadinhos não ponderem ser prejudicados quando só o prejuízo verdadeiro se vem acumulando aula sobre aula.
Gosto é das reuniões ditas pedagógicas e planificadoras, rocambolescas assembleias de idiotia e discursos redundantes, faustosos, cheios, palavrosos até ao vómito, ilustradas com senilidades que se arrastam à espera de um decreto redentor, da histeria das velhas, da patetice entranhada das encalhadas, dos loiros penteados das burguesas de mercearia, das desengonçadas de unhas de surro emocionando-se com equações de 2º grau e os alunos do 10º X são uns mal educados e não sabem onde é que isto vai parar antes é que havia respeito, e a falta de bases como desculpa carimbo, e os funcionários arrastando-se intrigas pelos corredores mas o melhor é eu estar de bem com aquele para me não marcar umas faltitas que me fazem um jeito do caraças que a vida não está para chatices e eu quero é levar a minha filhinha ao ballet e os alunos é que têm a culpa e os pais não querem saber.
Uma classe sem classe porque nem é classe, um amontoado de proveniências em cursos de didácticas imprevisíveis de engenheiras, arquitectas, advogadas e, o que é pior, de escolas de educação e metodologias didácticas assim é a minha escola e há os à margem do sistema, ou que se alegam tal, mas mamam do mesmo sistema como quem cospe no prato onde come, muito independentes, muito anti tudo, muito ridículos também eles na pose da pseudo diferença e do pseudo maior esclarecimento mas eu acho que não sou uma nem outra porque estou é preocupada em sair daqui o mais depressa possível porque tenho cabeleireiro marcado.