sexta-feira, fevereiro 24, 2006



falemos de coisas tristes

É tarefa dantesca descrever prestações de alunos noctívagos nas suas organizações mentais. Porém, forma verosímel de lhes indagar aqui as ditas é bem propósito desta avisada escritura. Fauna heterogénea na sua previsibilidade de alcance é a definição súmula deste grupelho de gente que se afoita pelos rios do conhecimento trazido pela barcaça da imprevidência de vir a saber alguma coisa a mais que a mediocridade a que andam afeitos. Vale a intenção instrutiva já que o resultado será escasso e procede da boa vontade de quem lhes tenta preencher buracos óbvios e sem fundo com o conhecimento básico das noções mais básicas.
Pragmática textual em códigos orais ou escritos é matéria de tão subida qualificação que toda a noção mais arrojada lhes esbarra nas meninges atrofiadas. Há que baixar o nível de língua sob pena da comunicação ser unívoca e o tempo ser ainda pior dispendido. As mentes curiosas estão ocupadas com outras coisadas mais prosaicas. Os namorados em esperas enfadadas lá fora ao portão da escola despertam-lhes fervores bem mais assanhados que sonetos de um tal Camões de petrarquistas amores e de quem apenas sabem ter perdido um olho. São arroubos bem mais físicos e recompensadores cujo alcance não cumpre vislumbrar e ainda menos imaginar, que isto de platónicas noções fica encastoado nas páginas dos manuais. Os telemóveis em silêncio no canto do olho para ver se o prof não nota a impaciência do olhar e da espera e o prof topa e vai calando face ao favor que os alunos lhe prestam estando para ali amodorrando-se em inércia de caracóis. Os suspiros tácitos dos leitos conjugais que
àquela hora decerto estarão bem mais aquecidos que uma sala empoeirada e fria. De alguma coisa há-de servir o que trazem vestido, senão para se cobrirem, mas para limparem as cadeiras e mesas que as funcionárias indigentes preguiçam em espanejar mandando ao ar vassouradas preguiçosas de poeiras múltiplas e que logo pousam no mesmo sítio, ainda mais negras que as mentes dos que os vêem ocupar. Não há gestos ou palavras mais veementes que lhes roubem a modorra do deixa falar que eu quero é que esta coisa passe depressa e que se lixem as estruturas internas, as ilocutórias empresas, as sinestesias e parafrenália correlativa. E a única forma de lhes abrir um pouquinho os olhos numa disposição de elipses cada vez mais fechadas à medida que se desenrola uma aula é falar de coisas comezinhas e banais não vá a elevação do assunto provocar dilacerantes incertezas sobre o tema de que se está exercendo alguma deambulação e, sobretudo, confusões maiores para inteligências já de si confundidas. Enquanto a coisa se desenrola do palavreado oral a coisa ainda vai já que do cérebro mirrado à pontas dos beiços a distância se vence na imprevidência do dizer qualquer anormalidade mas, quando o peso da imposição escrita tenta resvalar para o bico ensonado da caneta não há tema capaz de lhes levantar as mãos sonolentas. Porque isto de arrumar palavras, já nem digo escrevê-las, é tarefa de espíritos mais argutos pois a estes está algo vedada a astúcia da instrução por inércia social e vidinhas sem história. A luta com as palavras se as há, e a luta das palavras quando as há, resulta numa triste sintaxe aos trambolhões, morfologia de amálgama e ortografia embriagada. Às sextas-feiras a indumentária melhora, embora uma crista ensebada com aquilo a que chamam gel não acrescente nem promova muito à graciosidade de senhoris belezas de textos seiscentistas. Assim são os tempos e as meninas aprimoram as toiletes num fausto pimba de subúrbio para impressionar-se, primeiro a si, e depois os conversados em esperanças mais afoitas. Não convirá discorrer descritivamente sobre os gestos, esgares, tiques, parlendas, vestimentas e demais adjacentes pertences das entidades aqui mencionadas pois o grotesco terá o seu lugar noutro contexto mais artístico que este amontoado de risíveis criações quase humanas.
Enfim. A pedagogia será pau para toda a colher mas as suas capacidades são limitadas face ao incomensurável destino de fazer da matéria bruta organização pensante. E nestes preparos e corrimãos do tempo se vai ganhando para a bucha à custa das desventurosas criaturas que ali desperdiçam tempo e criação na perspectiva incauta de virem a ser gente mais esclarecida naqueles compostos mentais dos pobres de espírito que querem ascender no conhecimento e se atascam na lama das probabilidades sem futuro útil.

domingo, fevereiro 19, 2006



Quase toda a mulher é criatura copiosa de sensibilidade e toda ela minguada de raciocínio.

in Jesus, Armindo de, Livro de Sentenças, Lisboa, edições Livros Eternos, 2005