segunda-feira, dezembro 12, 2005



o homem a mais

Sei de um gajo que é um slogan. Tem o target dos 33 anos alcançado e o que vier de acréscimo não passa disso, uma redundância. Do 33 podia formar já uma frase curta e incisiva sobre qualquer coisa: assim considerasse ele a vida. Ao invés, encara-a como um diletante. A uma pergunta sobre Quando fazes anos? responde invariavelmente Já fiz, o que prova quanto a sua inteligência mirrou atrás de montes de papéis cosidos. Alega ainda a feitura de um pequeno ser, um pequeno emplastro que nada promete vir a acrescentar à espécie humana. Mas tem qualidades. Sabe medir muito bem a luz. Não aquela, a da sua existência, mas a outra, nas máquinas que se dizem fotográficas. Merecia uma fm3 mas o destino encarregou-se de se tornar cauteloso e deu-lhe uma outra nikon de merda com uma objectiva ainda mais merdosa: venham lá agora dizer que a vida não fotografa direito por objectivas tortas. Cose 33, cose. Tece a mortalha da tua invalidez como ser humano pensante. Encontrar-nos-emos num qualquer banco de um qualquer asilo desfiando mútuas maleitas e memórias de mitras, suor e surro, ranho e baba, pó e lixo, monco e ranheta, cuspo e ...

terça-feira, dezembro 06, 2005



RATAS
Da festa a Santa Luzia ressalta sempre o famoso leilão, dos "olhos vivos" segundo a nomenclatura da festarola, ponto de encontro e aparato das oferendas em bestas várias que se transfiguram em dinheiro a favor da santa ou da capela ou, como dizem as viperinas línguas, do padre. Os oferecimentos costumam cingir-se a animalejos de capoeira e não é fácil perceber este gosto pelo ganau de penas como se fosse ele intermediário preferencial da santa. Talvez que a sugestão a churrasco acabe por impelir a esta oferenda preferencial de gado alado. O certo é que o pregoeiro tem jeitos e requebros em vozearia capazes de fazer cair o mais inocente e assim lá vai obrigando a que cresça a oferta em espiral devota. Mas dá-se o caso do grande intermediário profano deparar, por vezes, com outras alimárias oferecidas que não as revestidas a penas. De dois bichos da índia dizia ele serem ratas ao que toda a gente ria com a alusão a coisas bem menos religiosas que a intenção explícita pois o profano é bem mais colorido que o alem. Aliás, de coisas mundanais está invadida a festarola para degustação variegada e consolo visível. Sim, que a devoção faz com que missas e rezas sejam de superior conveniência e proveito mas a estômagos vazios não se pode pedir fervor consentâneo com a importância da romaria. O certo é que ao redor do leilão há uma sinestesia improvável de solha frita, regueifa de canela, abafado e outras iguarias para sossego dos corpos em terreiro vasto que os espíritos têm lugar mais recolhido. Não consta que das ratas se tenha feito culinária mas nada admiraria face ao inusitado repasto e ao enjoo de comer sempre galináceos pois bem parece que quem compra o leiloado faça dele produto de panela.