segunda-feira, novembro 28, 2005



A MEDIOCRIDADE
A inquietação está na génese da criatividade. Não é o caso da imagem acima, já que, saturada de mediocridade desde a origem à execução, em nada se faz destacar. Ora, só é capaz da perplexidade quem afronta os motivos com a inquietude dos insatisfeitos, aquela que faz perdurar imagens. Porém, é destes momentos que se constrói o dia a dia :)


Quando o agir fotográfico deixa de ser um acto lúdico para se transformar num tormento de aceitação penosa, quando a fotografia se torna fonte de insatisfação porque se fotografa para outrem, quando a ditadura da aceitação mais ou menos pública escraviza quem dispara, quando as loas dos apreciadores são mais importantes que o gozo do disparo despreocupado, quando estéticas pré concebidas imperam sobre o gosto pessoal, quando a fruição do referente é subjugada pela preocupação da boa imagem...algo vai mal no equilíbrio emocional de quem se aventura pelos semideiros escusos da fotografia em lugar de seguir rectilínea feição daquele que olha pela máquina para adquirir a imagem glorificadora que coroa um momento. Esse momento foi meu e só a mim interessa. Opiniões alheias sobre a qualidade do seu assentamento em imagem são irrelevantes.

domingo, novembro 27, 2005



Pequeno manifesto contra a leitura

A leitura é uma actividade inútil. Não é produtiva porque nada faz nem deixa fazer. Um leitor é um ser absorto, estático, indolente. Geralmente sentado, perigosamente ridículo, não se apercebe das transformações que o rodeiam. Veja-se a figura apalermada de alguém lendo um livro num jardim. Passividade, evasão, alheamento, abulia, distracção, inércia social e demais patologias são potenciadas pelas leituras. Acrescente-se a mágoa da visão de uma enorme quantidade de pessoas que se dedica a tal deletério vício. A culminar este despropósito estão as bibliotecas, essa invenção demoníaca de locais fechados em caves de sofrimento pseudo intelectual, masmorras de conhecimento desnecessário, o que redunda em não conhecimento, folhas e folhas de letrinhas tristes e mesquinhas dizendo coisa nenhuma tentando dizer tudo.
Quem lê personagens e histórias vive no mundo do faz de conta em lugar de construir ele mesmo as suas acções, viajar pelos seus espaços e tempos, em suma, ser ele mesmo personagem da sua própria vida no convívio com os que o rodeiam. A leitura é, pois, uma fuga, uma deserção, uma perdição. Poemas e historietas são recursos de egos presunçosos julgando-se produtores de importâncias. Leitores são idiotas consumistas de noções ocas.
A nossa liberdade é cerceada pela leitura. Lendo não se vive, logo, não se aprende. A verdadeira aprendizagem está nas actividades do quotidiano, não nas folhas inertes e bolorentas de um livro. Nunca vi que uma palavra fosse de mais nutritiva que um rojão. Os antigos nunca precisaram de livros. Liam nas estrelas, liam nos ventos, liam nas folhas das árvores, liam nas cores e nos sons da natureza. Bem dizia Fernando Pessoa que o “sol doira sem literatura” e que os livros eram meros “papéis pintados com tinta”. Mais juntava ele que “estudar é uma coisa em que está indistinta/ a distinção entre nada e coisa nenhuma”.
Sejamos activos e úteis.

Um ex-leitor

terça-feira, novembro 22, 2005


O SEXO E A IDADE
Costumam associar-se aos jovens os contactos físicos mais aparatosos enquanto para os mais carregados de idade a distância prudente como caucionadora de respeito e conveniência. Não deixa, mesmo assim, de ser curioso tentar interpretar no grau de afastamento e o tipo de relação entre velhos a partir das imagens que sempre se nos deparam. A idade parece assim ir carregando com o peso da distância já que aos velhos estão vedadas beijoquices e tocamentos por imposição social e vergonha compreensível. Nem convém falar de apetites amorosos ou degeneração em asco corporal pois isso é coisa de difícil julgamento face a inoportunas incapacidades de estímulo que o tempo geralmente tem como castigo trazer por brinde. Conjugam-se aquelas com o veredicto das permanentes vizinhas opiniões e comentários sobre o despropósito de junções mais carnais ou exteriorizações de afectos em criaturas a quem o juízo e a decência fariam oferta de melhores comportamentos face à lascívia artritíca de que pateticamente julgam padecer. Puerilidade e senilidade acabam como pesos da mesma balança a inclinar-se para uma queda do bom senso no precipício do ridículo. Basta que vivam contentes dos olhos e seguros do coração, como dizia o mestre D. Francisco Manuel de Melo que nisto de aconselhar era de bem avisada pertinência. Deixem para jovens entusiasmos a prática de exercícios corporais e a quem deles verdadeiramente precisa e os sabe desempenhar. Que cada um leia como bem quiser, ou como gostaria que fosse, e assim se ficam exemplos do que se tentou introduzir. E as demasias em sensualidades de alzeimer mais não fazem que salientar o ridículo de certas junções senis. Pode lá haver coisa mais digna de lástima que ver dois velhos aos beijos, trementes e babados? Eis pois o retrato dos gerontes em oblícuas cambaleantes confluências quanto se atrevem ao que lhes estaria bem vedado se o juízo e as conveniências lhes ocupassem espaço nas moribundas carcaças

sexta-feira, novembro 04, 2005



OLHOS
Quem poderia adivinhar que o motivo desta conspecção improvável de gente sesuda é nem mais nem menos que Santa Luzia, padroeira dos olhos? Parece que a santa tem a capacidade de restituir visão a quem dela se sente necessitado. Tal não parece crível a gente mais incrédula mas as coisas mais impróprias são as mais procuradas.
A romaria a Santa Luzia é um amontoado de tradições que atrai, todos os 20 de Dezembro, hordas de feirantes que se aboletam à beira da estrada muito antes de chegarem os aspirantes a vistas mais capacitadas. Os romeiros ceguetas fazem promessas de olhos de cera que depositam junto ao andor numa fé dificilmente catalogável mas bem fornecida de créditos pelas crédulas sucessivas gerações que demandam a festarola. O certo é que, além da visão, os outros sentidos são também estimulados em manifestações várias nem sempre emprenhadas de fervor religioso. Desde o abafado de doces quenturas vendido a copo, garrafa ou garrafão em inúmeras barraquinhas, à solha frita em lata de óleo nunca mudado e preto de esturricado, às regueifas de canela, até aos demais odores que das festarolas populares sempre se desprendem em quantidades de assombro há uma míriade de bem profanos e apetecíveis estímulos. Bem parece que aqueles que muito devem sentir a falta de uma boa capacidade no uso do sentido da visão aprimoram outros como o olfacto e sobretudo o paladar. Dessas vastas delícias se faz a reunião anual da muita gentinha que a santa, além do poder de curar as vistinhas, é sobejamente benfazeja em fartas vitualhas para regalo de todos. Mais parece estra romaria um desfile de comedorias que devoções religiosas embora essas não faltem no terço, missa, procissão e demais desfiles com despojos de dejectos equinos. Tudo isto é estimulado com o estrondo dos foguetes e da banda de música inflamando a audição para completar a sinestesia festiva.
Melhor que falar sobre a santa luzia é visitá-la e isso tenho feito anos a fio. Só que, para escrever isto, já tenho de usar óculos o que prova quanto a minha inclinação vai para o sentido do gosto em lugar da vista, e a ausência de devoção está para as vistas em lugar dos comeres. Tenho, pois, de arrepiar caminho e dedicar-me mais a levar olhos de cera e menos olhos na barriga.